domingo, 26 de dezembro de 2010

O Nada Artístico

         O poeta num surto lhe foge a inspiração e rabisca sobre seu esboço, em fúria transforma uma folha em pedaços, que como restos pelo vento são levados. O lixo então lançado intercepta pelo caminho a atenção de uma senhora que cabisbaixa seguia pela calçada. De todas as palavras ali jogadas apanhara uma, esta mal se lia mas se esforçado fosse se lia "Eu" além dos traços que o esboço buscava ocultar. No exato momento de lido, a senhora abaixou mais a cabeça em um gesto introspectivo. Pois era um fragmento rejeitado, aparte do contexto pertencente, complemento esquecido de sua integra. Riscado e destacado. Era "Eu" o esquecido. Era "Eu" o desconsiderado pedaço que faltava para que o todo se tornasse completo. Fora o "Eu" o lixo, o descartado, que agora nas mãos da senhora adquiria sentido, sentido até mesmo despercebido para o poeta seu autor. O lixo agora não mais lixo, se tornava arte.


         Pois não fora pela beleza pura estética que um fragmento rasgado de papel de lixo à arte passava. Não seria a técnica e os contornos que tornam de Mona Lisa arte, mas sim uma virtude tênua que envolve seu rosto e busto, complementariedade de um fundo obscuro. Um leigo olha e vê um sorriso, sem nenhum conhecimento captara a arte por não estar na forma nem nas cores mas no observador que desatento olha, ouve ou sente. Sem essa percepção sútil torna-se-a, mesmo Mona Lisa, um símples parecer estético de valor artístico nulo. Ainda que a arte pura seja fruto de relativismo e afinidade entre observador e observado, não sendo nunca verdadeira nem eterna, sempre mutável e de valor variante perante o momento, os sentidos e as formas. Sendo sempre esta última equívoco comum, indifinivelmente distinguir-se-a pois além da costura da manga o primeiro viu uma mão e o segundo apontou um gesto. Na voz muda e desesperada da velha, o papel era mensagem. Teu sentido transcendia simples rabiscos que aos olhos de desapercebidos somente rabiscos seriam. Se lhe expressava, era o fragmento desprezado de seu proveniente autor agora arte. Se trazia sentido, então mesmo que por instantes convenhamos clamá-lo arte.

         De volta a cabeça reerguia e tomava adiante seu rumo. O papel de tão dadaístaica mensagem fora breve e retornava ao seu original estado, papel. Objeto estético desprovido de arte ou encanto, tornava-se nada. Lixo ao começo como era. Em tempo ocioso de cogitação vivia o dilema se teria ainda razão de guardá-lo uma vez que a aspiração se esvairiu, o vento precipitado o levou de relance. O objeto deixava sua observadora e desobservado desaparecia. Caiu nas mãos de outro que com olhos delicados o examinou, identificou rabiscos e uma repulsão estética. Classificado como agente poluente, descartou.

         Se lhe questiona o que é arte,
         Arte é uma palavra.
         O que se define dela,
         Cabe ao interlocutor decidir.

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